Forums » Debate geral sobre o piano e teclados.

Rei Piano

  • April 3, 2011 9:48 PM EDT

     

    Inventado em 1709 por Bartolomeo Cristofori, de Pádua, o piano é a primeira das máquinas

    de música manufacturadas industrialmente. Tomou o lugar do clavicórdio, e a principal

    diferença em relação a este consiste na substituição das tangentes por martelos cobertos

    de feltro que, depois de percutirem as cordas, voltam à posição inicial. Os alemães

    chamaram-lhe “hammerklavier” (piano de martelos) e continuamos a utilizar essa

    designação. Contando com pouco mais de 200 anos de existência, é ainda, segundo muitos

    pianistas, o melhor dos instrumentos de tecla – di-lo Frederic Rzewski, conhecido pelo seu

    envolvimento com um colectivo que elegeu a electrónica como a base dos seus

    procedimentos, o Musica Elettronica Viva: «Os novos teclados nada lhe acrescentam de

    essencial, e em alguns aspectos até são mais limitados.» E isto mesmo que tenham um

    léxico mais alargado de possibilidades. Rzewski ainda: «Descobri que é possível chegar a

    um maior nível de sofisticação quando se faz uso de um vocabulário de sons restrito;

    quantas mais letras se introduzirem no alfabeto, mais se tende a regressar ao estágio dos

    hieróglifos, como dizia o compositor Elliott Carter.» Não foi o único, claro: repare-se nas

    maravilhas criadas por Thelonious Monk apenas com uma mão e que levaram Gunther

    Schuller a dizer que «tocava como um pintor abstracto trabalha com padrões não-

    objectivos».

     

     

    Desde sempre, aliás, que o piano é um instrumento vocacionado para a experimentação

    sonora ou, melhor dizendo, para ir mais além do que dele se esperava, graças à exploração

    radical das suas próprias características mecânicas. A designação “hiperpiano” dada por

    Denman Maroney ao que faz com o invento de Cristofori não é mais do que a plena

    assunção da sua natureza. O primeiro grande exemplo deste carácter extrapolativo veio de

    Henry Cowell, figura das vanguardas iniciais do século XX que até no jazz e na chamada

    música improvisada deixou herdeiros, numa linhagem que vai de Cecil Taylor a Chris Burn.

    Foi esse pioneiro do metapianismo quem introduziu os “clusters” (cachos de notas ou de

    acordes) e ele também quem primeiro teve a ideia de manipular directamente as cordas do

    seu interior, bem como a madeira da armação. Estava aberta a porta para John Cage, aluno

    de Cowell, avançar com o conceito de “preparação”, colocando objectos nas cordas do piano

    a fim de transformar a sonoridade entendida como natural deste. Instrumento harmónico

    com vocação melódica que pretendia ser, aproximou-se desse modo dos seus fundamentos

    percussivos e rítmicos e universalizou-se, deixando de ter um carácter europeísta para

    evocar o gamelão indonésio e os tambores africanos.

     

     

    Se em 1930 Henry Cowell afirmava (escreveu-o no seu livro “New Musical Resources”) que

    as suas idealizações rítmicas só poderiam ser executadas por uma pianola, um derivativo do

    piano que tocava com a inserção de cartões perfurados, foi isso mesmo que fez Conlon

    Nancarrow para traduzir na prática as complexas texturas polifónicas, os súbitos contrastes

    de tempo e os glissandos e arpeggios ultra-rápidos das suas ideias musicais, que iam beber

    ao ragtime. Este tipo de intervenção resultaria mais tarde nos interfaces de vários pianos

    geridos por computador de Richard Teitelbaum, outro elemento do Musica Elettronica Viva.

    O maior desafio, no entanto, era que esta nova metamúsica pianística fosse totalmente

    executada por humanos e tivesse em conta as limitações físicas destes, ainda que

    ampliadas pelo desenvolvimento de técnicas designadas por “extensivas”. O já referido Cecil

    Taylor é, até aos nossos dias, um desses exploradores. Lamentava ele que os pianistas, de

    modo geral, não se servissem «completamente» do piano, e foi a isso que se propôs,

    apresentando uma música atemática e atonal, jogando permanentemente com contrastes

    de ritmo, de dinâmicas e de velocidade. As suas construções descontínuas, aparentemente

    próximas do caos mas com uma ordem implícita, rebentaram literalmente com as lógicas

    internas do fraseado jazzístico.

     

     

    A partir daí multiplicaram-se as tentativas de transcendência pianística, nas mais diversas

    áreas da música criativa e valorizando uma grande diversidade de aspectos. Gordon

    Monahan entendeu que o piano podia ser «uma nova fonte potencial de materiais sonoros»,

    encarando-o como «uma máquina de síntese de sons, e não o reverenciado instrumento

    estabelecido há dois séculos». Ouvimos o que gravou e parece-nos de produção electrónica,

    mas trata-se exactamente do mesmo instrumento para o qual Schubert compôs no século

    XIX. Stephen Scott colocou dez intérpretes, o Bowed Piano Ensemble, em torno de um

    único piano. Munidos de nylon, crina, pinças, arcos de violoncelo e magnetos, fazem tudo

    com ele menos tocar no teclado branco e negro. Chris Burn troca as preparações fixas de

    Cage por outras móveis e constantemente alteradas, para improvisar sobre módulos muito

    restritos, quase buscando a monofonia, com o propósito de «reduzir o piano a um objecto».

    Lidando apenas com a caixa de ressonância, ou seja, sem microfones ou qualquer outro

    recurso de amplificação, Agustí Fernandez metamorfoseia-o numa grande orquestra

    empenhada em produzir densas camadas de harmónicos. Veryan Weston experimenta

    diversos tipos de afinação, umas já em desuso, substituídas pelo temperamento igual que

    rege a música do Ocidente nos nossos dias, e outras de sua confeitura pessoal, além de

    tocar protótipos de pianos que não vingaram, como o luthéal, criado em 1918 por George

    Cloethens e que se diria um híbrido com o cravo. As abordagens são imensas, e no meio

    delas podemos até encontrar a reprodução, seguida de desmontagem até á última célula, de

    uma simples e secular melodia popular, nas mãos de João Paulo Esteves da Silva.

     

     

    Source: www.http://rep.no.sapo.pt/artigos_piano.htm - Rui Eduardo Paes